Maio Mariano

Maio, mês celebrado com fervor pelos cristãos católicos.

Por Ir.Eliane

 

Eis aqui a Serva do Senhor!” “Faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38)

Diga “sim”, como Maria disse.

Além das mensagens diárias, que ajudam a celebrar o mês mariano, existem outras maneiras de cultivar a devoção a Nossa Senhora. O “sim” de Maria é um convite para assumir o compromisso com a fé em Jesus e com a vivência do Evangelho.

A figura de Maria é, seguramente, exemplo de discipulado e de crescimento na fé. O seu “sim” firme a Deus que lhe interpela pelo anjo Gabriel (cf. Lc 1, 26-38) não foi seguido de facilidades e privilégios que a blindaram de dores e dúvidas. Pelo contrário, ela foi uma mulher que fazia um profundo exercício de ouvir, acolher e meditar a Palavra de Deus em seu coração (cf. Lc 2, 19.39.51b)… Sem isso, ela não produziria frutos. Isso é sinal de que Maria foi tomando consciência gradativamente do mistério que a envolveu e, tal como seu filho Jesus, pode-se dizer que Maria também cresceu, na fé, em sabedoria, graça e “estatura” espiritual. Sua humanidade contribuiu intensa e inevitavelmente à graça de Deus (cf. Lc 2, 48-52).

Práticas como o terço, as novenas, as ladainhas, o ofício, os cânticos populares e religiosos e as orações marianas, são bons recursos para celebrar o mês da Boa Mãe, como a chamava São Marcelino Champagnat. E fortalecer nossa espiritualidade mariana.

  1. História e tradição

A celebração do mês de maio, dedicado a Maria, já é bastante antiga na Igreja, fruto de associações feitas pelos primeiros cristãos às celebrações existentes em outras culturas da época. Narram os historiadores que essa tradição tem sua raiz na Grécia, uma vez que esse mês era dedicado a Artemisa, deusa da fecundidade. De forma semelhante ocorreu na antiga Roma, uma vez que maio era o apogeu da primavera, mês dedicado à Flora, deusa da vegetação. A associação cristã a este mês tem raiz nessas tradições.

A devoção a Maria é evidente desde o cristianismo nascente, o que se expressa através do Novo Testamento, especialmente nos Evangelhos de Lucas, Mateus e João. Os cristãos do século I já reconheciam o papel de Maria na história da salvação. Desde o início da tradição cristã ela foi assumida como o ícone de mãe, exemplo de perfeita discípula do Senhor e peregrina na fé, aquela que se colocou em atitude de prontidão para acolher o filho de Deus e se tornar o grande símbolo da nova humanidade. A Igreja Católica sempre tributou a Maria uma veneração, uma imitação, um amor muito especial desde o início do cristianismo. O motivo é porque ela é a Mãe de Jesus, o Filho de Deus e nosso Salvador e Redentor. Jesus sendo o Filho de Deus é igual ao Pai e ao Espírito Santo. A Jesus devemos o culto máximo de adoração. Maria sendo uma criatura como nós, não deve receber o culto de adoração, mas de veneração , amor e imitação. Maria é a Mãe de Deus porque ela é a Mãe de Jesus e Ele é Deus. O Concílio de Éfeso que o ocorreu no ano 431 com mais de 200 bispos presentes declarou solenemente o dogma mariano católico afirmando que Maria é Mãe de Deus.

Através do termo “theotokos” que em grego significa Geradora de Deus, aquele Concílio proclamou que Maria é Mãe de Deus. A maternidade divina de Maria é o fundamento de todos os outros seus privilégios e a razão do lugar especial que ela ocupa no culto da Igreja Católica e na devoção do povo cristão.

A própria Bíblia nos mostra que Maria tem o direito ao título de Mãe de Deus. Ela está presente na Bíblia desde o Antigo Testamento. Quando o Livro de Gênesis fala da mulher que esmagará a cabeça da serpente (Gn 3, 15), essa vitória definitiva sobre o mal é obra do Messias, Jesus, e sua mãe. Em Isaias 7, 14 encontramos a frase: “O Senhor mesmo vos dará um sinal: Eis a Virgem que concebe e dá à luz um filho que se chamará Emanuel”. Emanuel é uma palavra hebraica, que na tradução literal significa “Deus conosco”. Exprime uma presença particular e pessoal de Deus no mundo. Porém, o texto mais citado para provar que Maria é a Mãe de Deus é Lucas 1, 30-35: “O anjo disse a Maria: não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça junto de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e o chamarás com o nome de Jesus.

  1. Sentido Antropológico da maternidade de Maria

Você já pensou que o Povo de Deus e cada cristão em particular participam da maternidade de Maria? Homens e mulheres são chamados a desenvolver traços maternos.

Quando nascemos, somos acolhidos na comunidade dos cristãos, que nos recebe como mãe. A igreja-mãe gera novos filhos pela fé, pelo Batismo e pelo amor solidário. Como mãe, a comunidade cristã nutre seus membros por meio da oração, da Eucaristia e da vida fraterna. Quantas vezes, nos pequenos grupos, sentimos o colo e o aconchego da mãe. Somos ajudados, ouvidos, valorizados e educados. No seio da comunidade temos oportunidade de cescar como seres humanos e filhos de Deus.

A “opção preferencial pelos pobres” é uma das formas mais claras de a igreja mostrar que é mãe. Ela se volta para os filhos mais necessitados, que estão privados de direitos elementares, como alimento, moradia, saúde, acesso à educação e reconhecimento de sua dignidade. A opção pelos pobres nasce de um amor de mãe, que exige tomar posições firmes de anúncio e denúncia e realiza um serviço eficaz visando superar a pobreza e qualquer forma de exclusão.

Do outro lado, o ser humano intervém incisivamente sobre o meio ambiente, e o modifica, à medida que faz cultura e cria civilização. Considerando-se “senhor da natureza”, que muitas vezes de forma equivocada, como a madrasta má de um conto de fadas. Sem consciência do resultado de seus atos, promove a destruição do ciclo da vida. Por isso torna-se cada vez mais urgente resgatar a nossa dimensão filial e fraterna em relação ao meio ambiente. Isso se traduz por uma expressão simples e bela: cultura do cuidado. Implica superar a visão utilitarista e imediatista e promover a sustentabilidade, para que o planeta continue habitável e a humanidade tenha um futuro viável.

São Ambrósio já dizia, no século IV, que cada cristão é mãe como Maria, pois gera Cristo na sua alma, no seu coração. A sociedade atual esta marcada pela violência, pelo egoísmo, pela ganancia desenfreada pelo ter, pelo capitalismo, pela dureza nas relações humanas, pela degradação do meio ambiente.. Mas também há sinais esperançosos de praticas solidários, relações humanas que acolhem e integram as diferenças, crescente consciência e sensibilização ecológica e empenho pela cultura de paz. Neste momento, precisamos desenvolver atitudes maternas, uns para com os outros, e para todos os seres. Quantos mais cultivarmos a ternura, a intuição, o cuidado, a acolhida, o zelo pela vida ameaçada, mais estaremos realizando a dimensão materna do ser humano. Isso vale para homens e mulheres. E Maria, nossa mãe na fé, ajudará nessa tarefa.

. 3- Maria, Mãe de Jesus de Nazaré

O que significou para Maria de Nazaré ser mãe na Palestina, no século I? O que essa experiência da maternidade tem em comum com tantas mulheres que a vivem atualmente? Vamos destacar aqui algumas características da maternidade humana de Maria que servem de inspiração as mães de hoje. Trata de uma interpretação existencial, servindo-se da teologia.

  1. Maria, a mãe amorosa. O povo diz que ser mãe é muito mais do que colocar um filho no mundo. Normalmente, ninguém se transforma em mãe da noite para o dia. A gestação prepara o corpo e a mente da mulher para receber o bebê. Maria provou, efetiva e afetivamente, uma gravidez humana normal. Experimentou a expectativa Da vinda do filho desejado. Experimentou os noves meses de espera, durante os quais o filho já dava mostras de presença, movimentando-se dentro dela. Assumiu passo a passo sus missão, com forças e os sonhos de uma jovem mulher. Fez a opção de ser mãe, respondendo ao apelo de Deus. Durante a gravidez, comunicou sentimentos de amor, paz e acolhimento ao feto que se desenvolvia. Jesus teve uma mãe uma mulher muito humana, que desde o útero materno o acolheu, e o fez crescer como gente.

  2. Maria, a educadora de Jesus. Nos primeiros anos de vida de Jesus, Maria dispensou-lhe os cuidados maternos. Cuidou dele: deu-lhe banho e comida, estimulou seus primeiros passos, enxugou seu pranto, zelou de sua saúde. Ensinou-lhe a falar e a ouvir, a estabelecer as relações com as pessoas. O mistério da encarnação do Filho de Deus não é magico. Jesus passou por todos as etapas de crescimento de uma criança e necessitou de bons pais educadores, que foram Maria e José. Eles constroem uma saudável relação educativa com Jesus, dando-lhe as condições necessárias para o seu crescimento humano e espiritual. E “Jesus ia crescendo em sabedoria, tamanho e graça diante de Deus e das pessoas” (Lc 2,51).

  3. Maria, seguidora de Jesus e mãe da comunidade. Em toda relação de mãe e filho , chega o momento em que se fazem necessárias rupturas e mudanças de papeis. A mãe não pode continuar a tratar o filho como criança e ele tem que aprender a ser dono de si mesmo e se tornar independente. Isso também aconteceu com Jesus. Quando se tornou adulto, deixou a família e começou sua missão publica. Maria passou pela crise de perceber que, para Jesus, não importava Mais a família biológica, mas sim a nova família de seus seguidores( Mc3,31-35). E ela descobriu o seu novo lugar porque não tinha feito da maternidade um privilégio, mas um serviço. Como não estava apegada a função materna, assumiu com inteireza a nova missão de fazer parte do grupo dos seguidores de Jesus. Depois, foi constituída pelo próprio jesus com mãe da comunidade.

  4. Maria, a mãe que ama sem reter. Amor de mãe é muito bom, mas pode fazer mal se não for equilibrado. Algumas mães protegem tanto os filhos a ponto de impedir que se desenvolvam como adultos. Amor sem critério pode sufocar o(a) filho(a). outras nutrem sentimentos de ciúmes e posse, pois psicologicamente não cortar o cordão umbilical. Há, ainda, mães que se dedicam demais aos filhos e não reservam tempo para si mesmo. Não se dão o direito de descansar, de cuidar do corpo, de fazer algo gratuito. Quando tentam fazer isso, sentem-se culpadas. Aprenderam que “ser mãe é padecer no paraiso do lar”. O papel de mãe toma conta de toda a sua pessoa.Estão sempre preocupadas com seus filhos, cansadas e nervosas. Essa exigência constante, da família e de si própria, pode conduzir a um esgotamento físico e psicológico. O amor materno, quando é exagerado, prejudica a todos. Oprime os filhos, desgasta a mãe e exime o pai de sua responsabilidade.

Os evangelhos mostram Maria como mãe uma mãe tranquila na piedade popular. Ela ama sem reter. È mulher que sabe assumir outras funções na comunidade cristã, a serviço dos outros. Em Caná ( Jo 2,1-11), nenhum dos dois se trata reciprocamente como mãe e filho. Seu papel se transformou. Maria agora é a mulher, figura feminina da comunidade. Exercita seu serviço materno como companheira, em favor dos amigos e servos de Jesus. Maria é confirmada como irmã na comunidade e mãe da comunidade. Participara com os cristãos da alegria da ressurreição e do tempo novo do Espirito. A figura de Maria ensina que a mãe é um ser humano, não uma supercriatura. Não foi “feita para sofrer’, mas para experimentar a vida, no que ela tem de belo, de sagrado e de desafiador”.

Referência;

MURAD, Afonso Tadeu. Sobre Maria, Toda de Deus e tão humana; editora Paulinas: Santuário, 2012.

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no linkedin